Quando a verdade dói, há sempre a preocupação em suavizar seu impacto, seja com o objetivo de minimizar suas consequências, seja na intenção de negar realidades históricas para fins de aproveitamento político. Na era da “pós-verdade”, é muito comum inverterem o sentido das coisas, transformando em mentira o que é, ou foi, autêntico.
Impressiona como têm tentado rejeitar a verdade que a história nos conta sobre os anos sombrios que vivemos durante mais de duas décadas do século passado, quando fomos atingidos por um golpe militar que, por um tempo, matou a democracia. Os acontecimentos devem ser vistos não como fatos isolados, mas como uma sucessão de eventos que afeta nosso futuro. Buscam relativizar o sentido da verdade absoluta das ocorrências. A mídia política foi, inclusive, utilizada para falsear a história.
Insistem, por motivos políticos, em não confirmar a objetividade da verdade histórica que tanto nos machucou. A ideologia dominante, alienada e alienante, despreza propositadamente a narrativa real dos fatos. Teimam em impedir que compreendamos o verdadeiro significado da leitura dessa história, desvirtuando-a para as gerações contemporâneas. A sociedade precisa estar atenta: não pode esquecer o seu passado — ainda mais quando ele não nos traz boas lembranças.
Não se pode interpretar a história ao sabor das conveniências políticas ou ideológicas, quase sempre superficiais e transitórias. Ninguém consegue mudar o passado. Se a história recente ainda está viva na memória, não podemos nos guiar apenas por pesquisas, mas também pelos depoimentos de quem a viveu. Eu fui testemunha dessa história que ainda tentam negar. E me dispus a registrá-la, não apenas por ter sido protagonista de alguns eventos, mas também com base em pesquisas realizadas em jornais da época e relatórios das Comissões da Verdade, nacional e estadual. Além disso, pude entrevistar diversos personagens desse período sombrio da história nacional. Tudo isso resultou na publicação do livro Eu Vivi a Ditadura Militar, lançado pela Editora A UNIÃO, em dezembro do ano passado.
Destruir ou ocultar informações que impeçam o acesso ao conhecimento do passado, por motivações políticas, adotando a lógica do esquecimento, é negar o direito constitucional à memória coletiva. Quando resgatamos as verdades históricas do período ditatorial em que vivemos por duas décadas, estamos advertindo a geração contemporânea — e as que a sucederão — para que não permitam a repetição desses fatos. Relembrar é um dever de memória.
Segundo a pensadora canadense Régine Robin, “os esquecimentos sistemáticos em forma de perdões ou de anistias são outra maneira de realizar o apagamento do passado das sociedades”. Sua reflexão nos alerta de que o momento não nos permite concordar com essa tentativa de apagar a memória recente, concedendo anistia àqueles que praticaram atos violentos com o propósito de executar um golpe de Estado.
Rui Leitão