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“NÃO ME ENVOLVO COM POLICIAL”: FALA DE GILMAR MENDES PROVOCA REAÇÃO E FORTE CRÍTICA DO CAVEIRÃO DA NOTÍCIA

Durante sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF), realizada na terça-feira (15), o ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, afirmou, ao comentar sua relação com integrantes das forças de segurança: “Eu não me envolvo com policial. Mal conheço delegados.”

A declaração provocou reação e abriu um debate sobre a relação entre as instituições da República e os profissionais que estão diariamente nas ruas exercendo atividades essenciais à segurança da população.

COMENTÁRIO DA REDAÇÃO — CAVEIRÃO DA NOTÍCIA

Eu, jornalista Emerson Medeiros, do Caveirão da Notícia, nunca tive o desprazer de conhecer pessoalmente nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal. Meu contato com essas autoridades sempre aconteceu por meio da imprensa, da atividade jornalística e do exercício da minha profissão, da qual muito me orgulho.

E digo “desprazer” porque, diante de determinadas atitudes e declarações que temos presenciado, especialmente nos acontecimentos da última terça-feira, sinceramente não faço questão de estreitar relações pessoais com quem demonstra tamanho distanciamento daqueles que estão na linha de frente da segurança pública.

Mas existe uma diferença enorme entre não conhecer policiais e não reconhecer a importância deles.

Eu conheço.

Conheço do soldado ao coronel. Conheço praças, de soldado a subtenente, oficiais, agentes, escrivães, peritos, delegados, policiais civis, militares, federais, rodoviários federais e penais.

E me honro muito de ter amigos nessa função não apenas no meu estado de origem, a Paraíba, mas também em boa parte do Brasil.

Conheço homens e mulheres que sabem exatamente o preço de vestir uma farda, colocar um distintivo ou entrar em uma viatura.

Porque ser policial não é simplesmente bater o ponto e ir para casa.

É abdicar de finais de semana, aniversários, feriados, festas, momentos com os filhos, noites de sono e convivência com a família.

É sair de casa sem saber exatamente como será o retorno.

É atender uma ocorrência enquanto a própria família está dormindo.

É entrar em uma comunidade, cumprir um mandado, abordar um criminoso, investigar uma organização criminosa, enfrentar uma ocorrência de alto risco e, muitas vezes, colocar a própria vida em segundo plano para proteger alguém que sequer conhece.

E existe uma ironia que precisa ser dita.

Esses policiais também protegem aqueles que fazem questão de dizer que não se envolvem com policiais.

Protegem ministros.

Protegem magistrados.

Protegem parlamentares.

Protegem empresários.

Protegem artistas.

Protegem autoridades.

Protegem famílias inteiras.

Quando um ministro dorme tranquilamente em sua residência, existe uma estrutura de segurança pública trabalhando para que ele possa dormir.

Quando uma autoridade atravessa uma cidade em segurança, existem profissionais preparados para garantir aquela segurança.

Quando uma família sai de casa e volta em paz, existe, muitas vezes, um policial que passou horas na rua enquanto aquela família desfrutava da tranquilidade que ele ajudou a construir.

Então, senhor ministro, ninguém está pedindo intimidade.

Policial não precisa ser amigo de ministro.

Policial precisa de respeito.

Precisa de estrutura.

Precisa de condições de trabalho.

Precisa de segurança jurídica.

Precisa que o Estado reconheça o tamanho da responsabilidade que coloca sobre os ombros desses homens e mulheres.

E precisa, acima de tudo, saber que aqueles que representam as instituições da República compreendem que a segurança pública não é uma categoria inferior do serviço público.

É uma das bases para que a própria sociedade possa funcionar.

Não existe Justiça funcionando plenamente sem segurança pública.

Não existe economia funcionando plenamente sem segurança pública.

Não existe democracia funcionando plenamente sem instituições capazes de garantir a ordem e proteger o cidadão.

E ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei.

Ministros não estão acima da lei.

Policiais não estão acima da lei.

Jornalistas não estão acima da lei.

Parlamentares não estão acima da lei.

Ninguém está.

Mas se devemos respeito às autoridades constituídas, as autoridades também devem respeito ao povo brasileiro — aquele mesmo povo que paga impostos e financia o funcionamento de todas as instituições públicas.

E é justamente por isso que o que aconteceu na última terça-feira não pode ser tratado simplesmente como uma frase qualquer.

Na avaliação desta redação, a fala demonstrou um preocupante distanciamento daqueles que estão na ponta e que, todos os dias, enfrentam aquilo que muitos só conhecem através de processos, relatórios e documentos que chegam organizados às mesas dos gabinetes.

Enquanto alguns discutem segurança em ambientes protegidos, há homens e mulheres enfrentando o perigo nas ruas.

Enquanto alguns encerram suas atividades e retornam para suas casas, há policiais iniciando o plantão.

Enquanto alguns desfrutam de seus momentos de lazer, há profissionais da segurança pública abrindo mão dos próprios momentos com suas famílias para proteger a família dos outros.

E é justamente por isso que nós, do Caveirão da Notícia, fazemos questão de deixar registrado:

A todos os homens e mulheres das forças de segurança pública que se sentiram atingidos, desrespeitados ou diminuídos por essa fala, saibam que vocês podem contar conosco.

Podem contar com a nossa voz.

Podem contar com a nossa admiração.

Podem contar com o nosso respeito.

Podem contar com a nossa solidariedade.

Porque nós conhecemos a realidade de quem está na rua.

Conhecemos o sacrifício.

Conhecemos a abnegação.

Conhecemos a distância da família.

Conhecemos o risco.

E conhecemos, principalmente, o valor de um homem ou de uma mulher que veste uma farda e decide colocar a própria vida em risco para proteger a vida de quem nem conhece.

Do soldado ao coronel.

Do servidor mais moderno ao mais antigo.

Do policial que está começando sua carreira ao profissional condecorado por décadas de serviço.

A nossa continência, o nosso respeito e a nossa admiração.

E aos que ocupam os mais altos cargos da República, fica apenas um lembrete:

vocês podem não conhecer policiais. Mas os policiais conhecem muito bem a missão de proteger o povo — inclusive aqueles que, aparentemente, esqueceram que também fazem parte desse povo.

Caveirão da Notícia — a voz de quem está na rua e não tem medo de falar.

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