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✈️ VOO 375: O DIA EM QUE O BRASIL QUASE VIVEU UMA TRAGÉDIA NO PALÁCIO DO PLANALTO

Há 38 anos, um Boeing da VASP foi sequestrado, o copiloto foi morto e um comandante decidiu desafiar os limites da própria aeronave para salvar 104 vidas

DOCUMENTÁRIO ESPECIAL | CAVEIRÃO DA NOTÍCIA

Por Caveirão da Notícia
Especial de fim de semana — Setembro de 2026

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Há histórias que parecem roteiro de cinema.

Há outras que são tão extraordinárias que, quando contadas, parecem ficção.

E existe uma terceira categoria: histórias reais que aconteceram diante dos olhos de um país inteiro, mas que o tempo quase conseguiu apagar da memória nacional.

É o caso do Voo 375 da VASP.

Na próxima terça-feira, 29 de setembro de 2026, completam-se 38 anos desde aquela quinta-feira de 1988 em que um Boeing 737-300, com 105 pessoas a bordo, deixou de ser apenas um voo comercial e se transformou no cenário de uma das mais dramáticas histórias da aviação brasileira.

O avião deveria seguir para o Rio de Janeiro.

Mas, no ar, alguém decidiu mudar o destino da aeronave — e, segundo os relatos históricos, pretendia fazer do próprio avião uma arma contra o Palácio do Planalto, em Brasília.

O que aconteceu nas horas seguintes envolveu assassinato, tensão, negociação, caças da Força Aérea Brasileira, pouco combustível e manobras aéreas que até hoje impressionam especialistas.

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🛫 TUDO COMEÇOU COMO UM VOO NORMAL

O Boeing 737-300 da VASP, prefixo PP-SNT, fazia a rota Porto Velho–Rio de Janeiro, com escalas previstas em diferentes cidades, entre elas Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte.

Naquele dia, o avião chegou a Belo Horizonte.

A última etapa seria até o Rio.

A bordo estavam 98 passageiros e sete tripulantes: 105 pessoas ao todo.

O Brasil de 1988 era muito diferente do país atual.

Era um período de redemocratização, inflação elevada, crise econômica e forte instabilidade social. O presidente era José Sarney, e o país ainda estava reconstruindo suas instituições depois de duas décadas de regime militar.

É nesse ambiente que aparece Raimundo Nonato Alves da Conceição, então com 28 anos.

Segundo as reconstruções históricas, ele carregava um revólver calibre .32 e munição.

E conseguiu embarcar armado.

Naquele período, os procedimentos de segurança aeroportuária eram muito diferentes dos atuais. A ausência dos recursos e protocolos que hoje fazem parte da rotina dos aeroportos seria posteriormente objeto de questionamentos e de disputa judicial.

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🔫 VINTE MINUTOS DEPOIS DA DECOLAGEM, O HORROR

Pouco depois da decolagem de Belo Horizonte, Raimundo Nonato levantou-se e avançou em direção à cabine de comando.

Um integrante da tripulação tentou impedi-lo.

Houve disparos.

O sequestrador conseguiu chegar à cabine e anunciou suas exigências.

O objetivo era Brasília.

Mas não para pousar.

A intenção, de acordo com os relatos históricos, era fazer o Boeing atingir o Palácio do Planalto.

Foi nesse instante que o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva percebeu que estava diante de uma situação que poderia terminar em uma catástrofe.

E tomou uma das primeiras decisões fundamentais daquela história.

Sem que o sequestrador percebesse, acionou o código 7500 no transponder, utilizado internacionalmente para indicar interferência ilícita/sequestro de aeronave.

O alerta chegou ao sistema de controle aéreo.

A partir dali, o Brasil sabia que havia um avião sequestrado no céu.

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💔 SALVADOR EVANGELISTA: O HOMEM QUE NÃO VOLTOU PARA CASA

Um dos capítulos mais dolorosos daquela história aconteceu dentro da cabine.

O copiloto Salvador Evangelista tentou estabelecer comunicação com o controle de tráfego aéreo.

Raimundo Nonato interpretou a movimentação como uma ameaça.

E disparou.

Salvador Evangelista foi atingido e morreu.

A partir daquele momento, Fernando Murilo estava praticamente sozinho no comando de um Boeing carregado de passageiros, com um homem armado dentro da cabine e uma arma apontada para ele.

105 pessoas estavam naquele avião.

Uma delas já estava morta.

As outras 104 ainda não sabiam se conseguiriam voltar para casa.

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🇧🇷 O BRASIL COLOCOU UM CAÇA NO CÉU

O sequestro mobilizou imediatamente o sistema de defesa aérea brasileiro.

Um caça da Força Aérea Brasileira passou a acompanhar o Boeing.

A aeronave militar tinha a missão de interceptar e acompanhar o avião civil sequestrado.

O episódio se transformava, naquele momento, em uma operação de segurança nacional.

No solo, autoridades acompanhavam a movimentação.

No ar, Fernando Murilo precisava tomar decisões em segundos.

E, ao lado dele, um homem armado continuava exigindo que o avião fosse levado para Brasília.

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☁️ A PRIMEIRA GRANDE JOGADA DO COMANDANTE

Fernando Murilo sabia que precisava ganhar tempo.

E precisava, principalmente, tirar o avião de uma trajetória que pudesse colocá-lo diretamente sobre Brasília.

Segundo os relatos do próprio comandante, ele argumentou que as condições meteorológicas não permitiam uma aproximação segura da capital.

Era uma estratégia.

Enquanto conversava com o sequestrador, o comandante procurava uma alternativa.

O combustível também estava se tornando um problema.

O avião não poderia permanecer no ar indefinidamente.

E Raimundo Nonato não queria simplesmente pousar.

Em determinado momento, chegou a exigir que o avião seguisse para São Paulo.

O comandante sabia que isso poderia ser impossível.

O combustível estava acabando.

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⛽ QUANDO O COMBUSTÍVEL COMEÇOU A ACABAR

Foi então que a situação chegou ao limite.

O comandante precisava pousar.

Mas precisava primeiro neutralizar o sequestrador.

Fernando Murilo tomou uma decisão que, em condições normais, seria inimaginável em um avião comercial daquele porte.

Ele desligou o piloto automático.

E tentou uma manobra conhecida como tonneau — uma rotação da aeronave sobre seu eixo longitudinal.

A intenção era simples na teoria:

fazer o sequestrador perder o equilíbrio e cair.

Mas Raimundo Nonato conseguiu se segurar.

A primeira tentativa não resolveu.

Então veio algo ainda mais radical.

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🌪️ O PARAFUSO DE 9 MIL METROS

O comandante decidiu realizar uma manobra ainda mais extrema.

O Boeing entrou em uma descida em parafuso.

Durante a manobra, a aeronave perdeu altitude rapidamente.

Fontes que reconstruíram o episódio registram uma queda da ordem de 9 mil metros.

O objetivo de Fernando Murilo era desestabilizar Raimundo Nonato.

Dessa vez, funcionou.

O sequestrador perdeu o equilíbrio.

E o comandante recuperou o controle do Boeing.

À frente estava Goiânia.

O aeroporto apareceu como a possibilidade de sobrevivência.

O avião conseguiu se alinhar.

E pousou no Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia.

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😰 MAS O SEQUESTRO AINDA NÃO HAVIA TERMINADO

Aqui está uma das partes que muitas vezes ficam esquecidas quando a história é contada rapidamente.

O pouso não encerrou o drama.

O avião estava em solo, mas o sequestrador continuava armado.

Começou uma negociação com as autoridades.

Raimundo Nonato exigiu outra aeronave para fugir.

A operação policial se prolongou por horas.

Somente no início da noite veio o desfecho.

Ao deixar o Boeing, utilizando o comandante Fernando Murilo como escudo, Raimundo Nonato foi atingido por disparos de agentes da Polícia Federal e levado para atendimento médico.

Ele morreria dias depois. As fontes consultadas registram complicações decorrentes de sua condição de saúde e dos ferimentos; versões posteriores levantaram outras suspeitas, mas não há base documental confiável para tratá-las como fato.

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104 SOBREVIVENTES

Quando tudo terminou, 104 pessoas haviam sobrevivido.

O copiloto Salvador Evangelista foi a única vítima fatal entre os ocupantes do avião.

Outros integrantes da tripulação ficaram feridos durante o sequestro.

E havia ainda uma pergunta que permaneceria por décadas:

como um homem armado conseguiu embarcar em um avião comercial?

O caso provocou discussões sobre segurança aeroportuária e, anos depois, chegou aos tribunais.

Em 2011, a Justiça reconheceu responsabilidade da Infraero em uma ação movida pela filha do copiloto Salvador Evangelista e determinou indenização de R$ 250 mil. O episódio também continuou aparecendo em processos posteriores envolvendo a estatal.

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🏅 O COMANDANTE QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

Fernando Murilo não era um piloto comum.

Naquele dia, ele precisou fazer algo que não estava previsto em nenhum procedimento convencional para um Boeing comercial.

Ele pilotou praticamente sozinho depois da morte do copiloto, enquanto um sequestrador armado permanecia dentro da cabine.

Sua atuação recebeu reconhecimento posteriormente.

Em 1988, ele foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico.

Em 2001 — 13 anos depois do sequestro — recebeu também o troféu Destaque Aeronauta, do Sindicato Nacional dos Aeronautas, pelo papel desempenhado na crise.

Fernando Murilo morreu em 26 de agosto de 2020, aos 76 anos.

Mas sua história permaneceu.

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🇺🇸 TREZE ANOS ANTES DO 11 DE SETEMBRO

Existe uma coincidência histórica impossível de ignorar.

O sequestro do Voo 375 aconteceu em 29 de setembro de 1988.

Treze anos depois, em 11 de setembro de 2001, quatro aviões seriam sequestrados nos Estados Unidos.

Dois atingiriam as torres do World Trade Center.

Outro atingiria o Pentágono.

O quarto cairia na Pensilvânia.

No caso brasileiro, em 1988, houve também a intenção de utilizar uma aeronave comercial como arma contra um símbolo do poder político.

Mas é importante não transformar essa coincidência em uma afirmação de que os episódios tiveram a mesma origem ou relação direta. São acontecimentos históricos distintos, separados por 13 anos e com contextos completamente diferentes.

O que existe é uma semelhança concreta: em ambos os casos, uma aeronave comercial sequestrada foi associada à intenção de atingir um símbolo político.

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🎬 DA MEMÓRIA PARA O CINEMA

A história permaneceu tão impressionante que acabou chegando às telas.

Em 2023, estreou o filme “O Sequestro do Voo 375”, inspirado no episódio.

Para a produção, foi reconstruída uma aeronave em tamanho real para reproduzir a cabine e as manobras realizadas naquele dia.

A própria produção cinematográfica procurou recriar o tonneau e a queda em parafuso que marcaram o desfecho aéreo.

Antes disso, o caso já havia sido registrado no livro “Caixa-Preta”, de Ivan Sant’Anna, publicado em 2000.

Ou seja: o Voo 375 atravessou quatro décadas, passando da manchete dos jornais para livros, documentários e cinema.

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✈️ E O AVIÃO?

Existe ainda um detalhe quase inacreditável.

O Boeing PP-SNT não foi aposentado naquele dia.

Depois de ser reparado, continuou sua vida operacional.

Passou por outras empresas, chegou à Morris Air e posteriormente à Southwest Airlines, onde recebeu a matrícula N698SW.

A aeronave só encerrou sua carreira décadas depois, em 2013, quando finalmente foi desmontada.

O mesmo avião que, em 1988, esteve a minutos de se transformar em uma arma contra o centro do poder brasileiro ainda voaria por muitos anos.

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📰 COMENTÁRIO DA REDAÇÃO

CAVEIRÃO DA NOTÍCIA

Há acontecimentos que pertencem à história.

E há acontecimentos que pertencem à memória.

O Voo 375 pertence aos dois.

Trinta e oito anos depois, o Brasil precisa lembrar que, naquela manhã de setembro de 1988, 105 pessoas entraram em um avião esperando chegar ao destino. Uma delas entrou carregando uma arma e uma ideia que poderia ter produzido uma tragédia nacional.

Não houve herói de capa.

Não houve roteiro pronto.

Havia um comandante diante de uma escolha impossível.

De um lado, um homem armado.

Do outro, mais de uma centena de vidas.

No meio, um Boeing voando contra o relógio, com combustível acabando e o copiloto morto.

Fernando Murilo tomou decisões sob uma pressão que dificilmente pode ser reproduzida por quem não estava naquela cabine.

E é justamente por isso que essa história merece ser contada novamente.

Não apenas para exaltar um piloto.

Mas para lembrar também de Salvador Evangelista, que morreu trabalhando; dos passageiros que viveram aquelas horas de terror; dos profissionais que participaram da operação; e de uma época em que os protocolos de segurança da aviação eram muito diferentes dos atuais.

O Voo 375 também nos ensina que grandes tragédias, muitas vezes, são evitadas por uma combinação de preparo, coragem, experiência e decisões tomadas em segundos.

E existe uma última ironia nessa história:

o avião que poderia ter entrado para a história como uma arma acabou entrando para a história como símbolo de sobrevivência.

Naquele 29 de setembro, Goiânia não recebeu apenas um avião.

Recebeu um Boeing carregando 104 vidas que poderiam ter sido perdidas.

E o Brasil, sem saber, escapou de uma tragédia que poderia ter mudado para sempre a sua história.

38 anos depois, o Caveirão da Notícia abre novamente essa caixa-preta da memória nacional.

Porque algumas histórias não podem pousar no esquecimento.

CAVEIRÃO DA NOTÍCIA — informação, memória e jornalismo sem maquiagem.

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📌 FICHA DO EPISÓDIO

Data: 29 de setembro de 1988
Voo: VASP 375
Aeronave: Boeing 737-300/737-317
Prefixo: PP-SNT
Rota: Porto Velho → Rio de Janeiro
A bordo: 105 pessoas
Sobreviventes: 104
Vítima fatal: copiloto Salvador Evangelista
Comandante: Fernando Murilo de Lima e Silva
Sequestrador: Raimundo Nonato Alves da Conceição
Destino final do voo: Aeroporto Santa Genoveva, Goiânia
Marco histórico: 13 anos antes dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Nota de precisão: algumas reproduções nas redes sociais apresentam o episódio como ocorrido em 1986. O sequestro do Voo 375 aconteceu em 29 de setembro de 1988; 1986 foi o ano em que o Boeing PP-SNT realizou seu primeiro voo.

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